Os cerca de quatro milhões de clientes em França com uma conta Nickel passam a poder abrir uma caderneta de poupança dentro do próprio neobanco. Os montantes depositados (os saldos/encargos) ficam a cargo da Cetelem, enquanto a gestão operacional é assegurada pela Copartis - duas entidades do universo BNP Paribas, grupo que comprou a Nickel em 2017. A questão impõe-se: o que vale esta primeira caderneta de poupança num momento em que a Caderneta A vê a sua remuneração descer?
Durante muito tempo, a Nickel manteve-se fiel a uma proposta minimalista: uma conta e um cartão bancário (com ofertas cada vez mais “premium”). Só que, sem um produto de poupança, torna-se difícil para muitos clientes usar a Nickel como solução principal para gerir o dinheiro. Mesmo num contexto de descida das taxas e de saídas de dinheiro em massa da Caderneta A, a Nickel avança agora com a sua primeira caderneta de poupança.
Esta aposta tardia tem uma explicação: a Nickel nunca escondeu que o foco inicial eram os clientes com mais dificuldades de acesso ao sistema bancário, incluindo pessoas com restrições bancárias, e também consumidores com rendimentos mais baixos. Daí a importância atribuída à presença física, através de acordos com tabacarias, onde foram instalados terminais e onde estes pontos passaram a funcionar como apoio para operações do dia a dia - por exemplo, levantar dinheiro ou depositar um cheque. Já em 2024 e 2025, a Nickel concentrou esforços na expansão internacional, com destaque para um acordo recente com a rede de tabacarias na Bélgica.
Primeira caderneta de poupança Nickel: taxa, condições e disponibilidade
A nova caderneta de poupança Nickel procura replicar a lógica de acessibilidade da conta de pagamento: pode ser aberta por titulares com mais de 190 passaportes, com ou sem restrições bancárias, sem exigência de rendimentos e com possibilidade de adesão por adolescentes.
Na prática, em França, a caderneta pode ser criada num clique pela aplicação móvel, sem condições de acesso. Os depósitos são livres, a partir de 10 €, quer sejam pontuais quer recorrentes. Quanto à mobilização do dinheiro, a Nickel indica que os levantamentos - tal como o acesso aos juros - ficam disponíveis no prazo de 48 horas úteis.
No entanto, o ponto decisivo é a remuneração. No final de novembro de 2025, a Nickel anuncia para esta caderneta uma taxa de 2% brutos ao ano. Para manter o produto, o cliente terá de suportar 1 € por ano em comissão de gestão.
Caderneta de poupança Nickel e o papel de BNP Paribas, Cetelem e Copartis
A engrenagem por trás do produto fica dentro do grupo: a Cetelem (marca comercial da BNP Paribas Personal Finance) assume os montantes depositados, e a Copartis (especializada em subcontratação/operacionalização de produtos bancários) trata da execução operacional. Traduzindo: a Nickel não pretende montar uma equipa dedicada nem criar internamente esta competência; o objectivo é oferecer aos seus clientes um serviço de poupança considerado essencial num banco - ainda mais num período de inflação.
Como nota adicional para enquadramento, é útil que os clientes confirmem antecipadamente como funcionam limites, movimentações e comissões no detalhe contratual da caderneta, sobretudo se planeiam usar transferências regulares. Em produtos digitais, a simplicidade de adesão não dispensa a leitura das condições, nomeadamente para perceber prazos reais de disponibilidade e a incidência de eventuais custos.
A descida da Caderneta A e a “despoupança” dos franceses
Franck Vignard, Director-Geral da BNP Paribas Personal Finance France, enquadrou o lançamento com a seguinte mensagem: “Estamos muito satisfeitos por contribuir para este projecto no seio do Grupo BNP Paribas, tornando a poupança acessível a todos. Esta parceria com a Nickel ilustra a nossa vontade de inovar para propor soluções simples, úteis e adaptadas às necessidades do quotidiano dos clientes.”
Do lado da Nickel, a Directora-Geral Marie Degrand Guillaud apresentou a nova solução como segura e competitiva, ligando o momento ao recuo da taxa da Caderneta A para 1,7%, ocorrido a 1 de Agosto. Uma consequência directa foi uma saída líquida muito significativa em Outubro, estimada em 5,1 mil milhões de euros.
BCE, taxas directoras e a mudança de comportamento na poupança
As alterações recentes das taxas directoras do BCE tiveram impacto evidente. A própria Caderneta A, por exemplo, ainda apresentava 3% de remuneração no início de 2025. Nesse período, os franceses tornaram-se verdadeiros “campeões” da poupança: no segundo trimestre do ano, colocaram de lado 18,7% do rendimento disponível, de acordo com dados do Banco de França.
O reverso da medalha foi o travão no consumo - praticamente estagnado - o que não ajudou a dinamizar a economia. Em Setembro, verificou-se, contudo, uma inflexão: os montantes canalizados para seguros de vida aumentaram de forma clara, com 14,9 mil milhões de euros em entradas.
Para quem avalia alternativas como a caderneta da Nickel, faz sentido comparar não só a taxa nominal, mas também a combinação entre prazo de disponibilização (48 horas úteis), comissão anual (1 €) e o efeito de uma taxa bruta no resultado final. Em cenários de mercado mais voláteis, a escolha tende a depender menos de um único número e mais do equilíbrio entre liquidez, custos e previsibilidade.
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