A decisão já está em cima da mesa.
No Dinamarca, o Estado optou por terminar a distribuição de correio em papel a partir de 31 de dezembro do ano passado, numa resposta direta à generalização dos usos digitais. Perante este cenário, surge a pergunta: poderá a La Poste seguir o mesmo caminho em França? A dúvida ganha força quando se olha para a queda do volume de cartas entregues, que passou de 18 mil milhões em 2009 para 6 mil milhões em 2024.
O RMC Conso colocou esta questão ao deputado e antigo ministro Stéphane Travert, que também preside ao Observatório Nacional da Presença Postal (ONPP). A sua posição é clara: essa hipótese não está em cima da mesa para a empresa pública. Na sua perspetiva, França está longe de um cenário como o dinamarquês, porque a La Poste cumpre missões de serviço público que não podem ser encerradas de forma abrupta. Acrescenta ainda que a população continua muito ligada tanto ao serviço de distribuição de correio como, de forma mais ampla, à própria La Poste.
La Poste e o correio em papel: o que pode mudar em França?
Para Stéphane Travert, entregar estas missões a uma empresa privada seria um erro - e, segundo ele, nem sequer é uma opção considerada. Ainda assim, isso não impede a La Poste de procurar reduzir custos. O RMC Conso recorda, a este propósito, a nota divulgada pelo Tribunal de Contas em fevereiro de 2025, que alertava para uma deterioração da situação histórica, causada por uma nova quebra nas atividades tradicionais e por uma rentabilidade insuficiente nas áreas de diversificação.
Outro ponto sublinhado é a manutenção de uma rede de 17 700 pontos de contacto em todo o território francês - uma dimensão considerada excessiva quando comparada com a de outros países da União Europeia. Ao mesmo tempo, estes pontos de contacto são frequentemente vistos como motivo de orgulho nacional e garantem uma presença que, em muitas pequenas comunas, é simplesmente indispensável.
Na prática, a redução desse número já foi decidida e a empresa começou a avançar nesse sentido. Contudo, por agora, não está previsto mexer na distribuição de correio seis dias por semana. De acordo com o RMC Conso, um debate sobre este tema nem deverá arrancar antes de 2036.
O caso do Dinamarca: fim do serviço público de cartas
Vale lembrar o que aconteceu no Dinamarca: foi tomada a decisão de encerrar a distribuição de correio em papel a 31 de dezembro. Como consequência, as 1 500 caixas de correio ainda existentes e os 1 500 postos de trabalho associados a esta missão dentro da empresa pública serão eliminados de forma gradual.
Desde então, qualquer dinamarquês que queira enviar uma carta tem de recorrer a uma empresa privada, com destaque para a Dao. Ainda assim, estima-se que cerca de 80 milhões de cartas sejam enviadas no país em 2026.
Entre a transição digital e a coesão territorial
A evolução para serviços digitais é real, mas levanta desafios concretos: em zonas rurais e entre pessoas mais idosas, o correio em papel e a presença física de um balcão continuam a ter um peso significativo no acesso a serviços e na sensação de proximidade do Estado. A discussão, por isso, não é apenas económica - também toca a coesão territorial e a forma como se garante igualdade de acesso em todo o país.
Há ainda um aspeto frequentemente associado a estas mudanças: quando o correio tradicional diminui, os operadores postais tendem a reforçar outras frentes (como encomendas e logística). Isso pode ajudar a compensar receitas, mas também reconfigura prioridades e o tipo de investimento no serviço universal, tornando o equilíbrio entre eficiência e missão pública ainda mais sensível.
E você: tal como muitos franceses, também se sente ligado ao correio em papel? Partilhe a sua opinião nos comentários.
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