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Apesar de terem milhões em património, casal de reformados recebe mais de 300.000 euros em apoios sociais.

Casal sénior a analisar documentos financeiros e envelope marcado como serviços sociais.

À primeira vista, parece o enredo de uma série policial: um casal de reformados a viver “com pouco” e, ao mesmo tempo, a receber apoios públicos durante anos. Mas aconteceu mesmo na Suíça - e só veio a público quando a história da reforma apertada deixou de ser sustentável e os próprios acabaram por confessar.

Durante mais de uma década, os dois receberam prestações sociais a que não tinham direito. Quando decidiram “abrir o jogo”, já não deu para evitar as consequências: devolveram o dinheiro e foram sancionados, embora o desfecho penal tenha sido limitado pelo tempo decorrido.

Como o casal de reformados chegou a quase 300.000 euros em apoios sociais

Os dois cônjuges, hoje com cerca de 75 anos, declararam em 2015 às autoridades uma vida modesta. De acordo com os documentos, diziam ter apenas a reforma legal de velhice (AVS) de cerca de 1.419 francos por mês e uma pequena reserva financeira de 70.000 francos, distribuída por três contas.

Com este retrato, pareciam cumprir os critérios para receber prestações sociais complementares. Na Suíça, as chamadas Ergänzungsleistungen servem para colmatar falhas de rendimento de quem tem baixos recursos. E foi exatamente aqui que o esquema do casal se encaixou.

Na realidade, segundo os investigadores, o casal tinha no total cerca de 1,05 milhões de francos - perto de 1,14 milhões de euros - escondidos em sete contas bancárias.

Na altura, as autoridades partiram do princípio de que se tratava de um agregado de reformados com poucos meios. Com base nisso, foram aprovados apoios ao longo de vários anos, elevando de forma clara o nível de vida dos dois. No total, entraram cerca de 280.000 francos, o equivalente a aproximadamente 304.000 euros, nas mãos do casal.

Sete em vez de três contas: como o património foi escondido

A diferença entre o que declararam e o que existia era enorme. Enquanto comunicavam apenas três contas, mantinham mais quatro contas “fora do radar”. Assim, a maior parte do património ficou escondida das entidades de controlo.

A lógica era simples: aparentar necessidade sem mexer no próprio capital. O dia a dia era pago com os apoios sociais, e as poupanças permaneciam praticamente intactas. Segundo os investigadores, o casal viveu com conforto - apesar de, no papel, parecer que estava “a contar trocos” para chegar ao fim do mês.

  • património declarado: 70.000 francos em três contas
  • património real: 1.050.000 francos em sete contas
  • apoios aprovados: cerca de 280.000 francos em dez anos
  • reforma mensal: aprox. 1.419 francos por pessoa

Mesmo quando as autoridades questionaram a situação financeira em 2018 e 2021, a encenação manteve-se. O casal negou a existência de outras contas e apresentou apenas a informação já conhecida. Sustentaram, de forma consistente, a narrativa de um orçamento apertado na reforma.

Controlo, suspeita - e ainda assim mais uma conta

Apesar das verificações, a verdade completa ficou por descobrir durante muito tempo. E os reformados não aproveitaram esse período para recuar. Pelo contrário: abriram ainda uma oitava conta e colocaram lá mais 30.000 francos, cerca de 32.500 euros.

Com isso, agravaram a tentativa de enganar o sistema. Em vez de usarem as poupanças para o sustento - como as regras preveem - deixaram o património crescer. A caixa social pagava, enquanto o capital privado se acumulava.

Graças às contas ocultas, o casal conseguiu manter o seu nível de vida sem ter de tocar de forma relevante no próprio dinheiro.

Casos destes são vistos como especialmente graves na administração social, porque não resultam de um erro pontual. Aqui houve planeamento por anos, falsas declarações repetidas e ocultação deliberada de património.

Autodenúncia com consequências: devolução do dinheiro, sanções mantêm-se

Ao fim de cerca de dez anos a jogar com a verdade, o casal acabou por travar. Contactou as entidades competentes e confessou a fraude. Os dois devolveram integralmente os cerca de 280.000 francos recebidos indevidamente.

A autodenúncia aliviou a situação, mas não livrou os reformados de consequências penais. O Ministério Público de Zurique-Limmat classificou a conduta como engano cometido de forma profissional no âmbito de prestações sociais.

Cada um dos dois recebeu:

Sanktion Betrag pro Person
Geldstrafe 3.600 Franken (ca. 3.894 Euro)
Verfahrenskosten 1.000 Franken (ca. 1.081 Euro)
zusätzliche Geldstrafe auf Bewährung 14.400 Franken (ca. 15.577 Euro)

A multa adicional suspensa (com pena suspensa) significa o seguinte: se, dentro de um determinado período, não houver nova infração, essa quantia não tem de ser paga. Ainda assim, o impacto financeiro imediato mantém-se - além da devolução total dos apoios indevidos.

Porque os serviços sociais são tão rigorosos com o património

Este caso mostra até que ponto os sistemas de apoios sociais dependem de declarações verdadeiras. As prestações complementares e ajudas semelhantes existem para apoiar quem, com a reforma e o rendimento, não consegue cobrir despesas essenciais. Quem esconde património elevado retira ao sistema recursos que deveriam chegar a quem realmente precisa.

Na atribuição de apoios sociais, entram vários elementos no cálculo:

  • rendimento mensal de reforma, trabalho, pensões de alimentos
  • montante do património existente em contas ou investimentos
  • valor de imóveis, se existirem
  • despesas correntes, como renda, prémios de seguro de saúde, custos de cuidados

Ocultar património distorce artificialmente o retrato global. Em muitos países, um valor de cinco dígitos já pode reduzir direitos ou eliminá-los por completo. Com mais de um milhão de francos em capital, o direito seria, por regra, excluído.

O que conta como fraude social - e quão depressa se entra em ilegalidade

A fraude social nem sempre é tão “cinematográfica” como neste episódio. O simples facto de esconder conscientemente um trabalho extra, uma herança ou uma conta-poupança pode ser crime. O ponto central é se essa informação influencia o cálculo do apoio.

Situações típicas de risco incluem:

  • rendimentos adicionais que não são comunicados
  • levantamentos em numerário que fazem o património parecer “desaparecido”
  • contas em nome de familiares que, na prática, pertencem ao beneficiário
  • declarações deliberadamente falsas sobre renda, custos de saúde ou estado civil

As autoridades cruzam cada vez mais dados de forma automatizada, por exemplo com bancos, seguros de reforma ou entidades fiscais. As inconsistências, por isso, são detetadas mais facilmente do que há alguns anos. Quem aposta na ideia de que o sistema “não vai dar por isso” está a assumir um risco elevado.

Porque alguns reformados recorrem à fraude apesar de terem património

Os motivos raramente são lineares. Em muitos países, cresce o medo da pobreza na velhice - até entre pessoas com poupanças. Há quem tema que, em caso de dependência ou necessidade de cuidados, o dinheiro acumulado desapareça rapidamente. Alguns acabam por adotar a lógica de deixar o Estado pagar enquanto houver uma brecha.

Do ponto de vista psicológico, a autojustificação pesa muito: “descontei a vida toda”, “os outros também fazem”, “o Estado tem dinheiro” - são frases que aparecem repetidamente em investigações. Mas o facto é simples: os apoios sociais dependem da necessidade atual, não de contribuições passadas ou de um sentimento de direito.

Quem quer melhorar a sua situação de forma legal tem alternativas: aconselhamento em serviços sociais ou gabinetes de apoio à dívida, rever custos de habitação, pedir prestações adicionais ou subsídios a que tenha direito. Dá mais trabalho do que uma conta escondida, mas evita mais tarde processos, multas e danos de reputação.

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