Depois de semanas de antecipação e pistas deixadas aqui e ali, Eric Larchevêque - fundador da Ledger e da Coinhouse, e também rosto conhecido do programa “Qui veut être mon associé ?” na M6 - apresentou finalmente, a 24 de novembro de 2025, a iniciativa que diz querer mexer com a forma como organizamos a sociedade e devolver ambição a quem cria empresas. O nome do projecto é The Bitcoin Society. Estivemos no evento e saímos com tantas dúvidas quanto temas para discutir.
Havia quem esperasse o anúncio de um novo partido. Outros apostavam numa candidatura às presidenciais francesas. Larchevêque admitiu sentir-se lisonjeado com a especulação, mas o que trouxe a palco foi outra coisa: uma keynote onde a política surgia como pano de fundo (e até como motivação), embora o foco real estivesse no que lhe deu notoriedade - o bitcoin e o empreendedorismo.
Durante cerca de uma hora, o empreendedor - que se descreve como “libertário moderado” - traçou um diagnóstico de uma França (e não só) que considera esgotada e apresentou The Bitcoin Society como uma espécie de sociedade alternativa apoiada na força do bitcoin.
Ainda assim, por mais boa vontade que haja, não é simples perceber com precisão onde Larchevêque quer chegar. O projecto, que conta com o apoio de Tony Parker (amigo e companheiro televisivo, segundo o próprio), pretende ganhar dimensão internacional - o que torna a proposta simultaneamente ambiciosa e, para quem não está dentro do tema, difícil de decifrar.
The Bitcoin Society (Eric Larchevêque): afinal, o que é?
No fecho da apresentação, Larchevêque classificou-o como “o projecto mais importante da minha vida”. Em termos formais, The Bitcoin Society é descrita como uma sociedade cotada em Bolsa, com base em Paris e listada na Euronext Paris, estruturada em três pilares:
- uma Bitcoin Treasury Company (BTC);
- uma Network Society;
- e um clube premium para empreendedores, o SKL Club.
Para viabilizar esta arquitectura em mercado regulamentado, o projecto absorveu também a empresa do Tayinh (ex-Unibail) - uma entidade apresentada como “adormecida” (uma espécie de shell). Larchevêque e parceiros avançaram com uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) para obter um controlo quase total, permitindo que a estrutura associada à TBSO fique cotada na Euronext Paris e possa captar capital junto de investidores interessados neste modelo.
Bitcoin Treasury Company (BTC): bitcoin como activo principal de reserva
Uma Bitcoin Treasury Company (BTC) é, em termos simples, uma empresa que coloca o Bitcoin como principal activo de reserva e o integra na sua estratégia financeira global. A intenção não é fazer apostas de curto prazo, mas sim construir e gerir um “tesouro” em Bitcoin com uma lógica de longo prazo - procurando uma tesouraria que seja estável na sua abordagem e valorizada com o tempo.
Este conceito, ainda relativamente pouco conhecido do grande público mas em clara expansão, assume um posicionamento ideológico e financeiro: defender o Bitcoin como alternativa independente face a bancos centrais e instituições tradicionais.
Uma nota essencial sobre execução e risco (parágrafo adicional)
Uma tesouraria baseada em bitcoin levanta questões práticas que quase sempre determinam o sucesso (ou o falhanço) da estratégia: custódia, governação interna, auditoria e segurança operacional. Mesmo sem entrar em detalhes técnicos durante a apresentação, é inevitável que investidores e empreendedores queiram perceber como são guardadas as chaves, que controlos existem, que políticas de risco são aplicadas e que tipo de transparência será oferecida ao mercado.
O bitcoin como moeda alternativa
Larchevêque nunca escondeu a sua afinidade pelo bitcoin. Por isso, não surpreendeu que defendesse que a sociedade se apoiará nessa criptomoeda para a colocar no centro do seu ecossistema económico. Na keynote, contrapôs o bitcoin às políticas monetárias tradicionais e aos bancos centrais, que considera pouco eficazes e prejudiciais quando o tema é inflação.
A pergunta óbvia surgiu de imediato: porquê criar uma sociedade cuja moeda de referência é o bitcoin, quando a volatilidade é elevada? A resposta apresentada foi que o bitcoin, na visão do fundador, responde melhor aos desafios das sociedades modernas do que o ouro (cujas reservas seriam, segundo ele, difíceis de verificar) e do que as moedas actuais (fiat), por estarem sob controlo directo dos Estados.
Neste enquadramento, a estratégia da Bitcoin Treasury Company passa por acumular bitcoins como reserva de valor, permitindo que a empresa ambicione tornar-se uma referência nessa “nova economia”. Na prática, investidores poderão comprar participações numa companhia cujo “tesouro” assenta sobretudo em bitcoin.
Reguladores, fiscalidade e adopção (parágrafo adicional)
O próprio Larchevêque reconheceu que o trajecto do plano dependerá, em grande medida, do acolhimento das autoridades reguladoras. Num projecto cotado e com ambição internacional, a relação com regras de mercado, requisitos de divulgação e enquadramento fiscal é determinante - especialmente quando o activo central é volátil e sujeito a escrutínio. É um ponto que, inevitavelmente, será decisivo para transformar visão em execução.
Network Society: um “rede” para influenciar o debate político
O segundo motor da Bitcoin Society é a Network Society - literalmente, uma “sociedade em rede”. Em vez de organizações clássicas e verticais (como Estados ou grandes corporações), este modelo assenta em redes distribuídas, flexíveis e globais, onde as ligações e a coordenação acontecem por comunidade e interesses partilhados.
Na prática, a ideia é formar uma comunidade conectada de empreendedores e agentes económicos que cooperem e alinhem estratégias para além das instituições convencionais.
O objectivo declarado é crescer o suficiente para pesar colectivamente no debate público e político, sobretudo em temas monetários e fiscais ligados ao Bitcoin, mas também - de forma mais abrangente - no futuro económico e social. À vista desarmada, pode parecer um lobby de empreendedores muito ricos. Larchevêque insistiu que não é essa a intenção, embora admita que a forma como soa é semelhante.
SKL Club: um clube VIP para apoiar empreendedores
A terceira peça é o SKL Club, um clube exclusivo com abertura anunciada para dezembro de 2025, pensado para apoiar empreendedores dentro deste “novo ambiente”. A proposta não é a de um simples grupo de investidores: trata-se de um modelo por subscrição anual, desenhado para criar um espaço de partilha e entreajuda para fundadores e equipas, com acesso a uma rede de especialistas, mentores e investidores alinhados com a visão de Larchevêque.
Este clube é apresentado como o elemento que fecha o círculo: a tesouraria em Bitcoin, a Network Society e os empreendedores do SKL Club alimentariam um mecanismo triangular, onde cada componente reforça as restantes, com a ambição de gerar um ecossistema económico robusto e autónomo.
Muitas perguntas (e poucas respostas definitivas)
Mesmo com a energia do fundador e o apoio visível de Tony Parker, The Bitcoin Society gerou tanta curiosidade quanto perplexidade. A visão de Larchevêque pode ser lida como uma tentativa interessante de oferecer uma alternativa a sociedades que ele considera “no limite”, mas permanece um nevoeiro considerável sobre a natureza exacta do projecto, o modelo económico e, sobretudo, o impacto concreto na vida real. O empreendedor defendeu que isto pode funcionar no longo prazo, mas também admitiu que a evolução dependerá do olhar dos reguladores.
No final, ficou a contradição mais difícil de ignorar: Larchevêque disse na keynote que 99% dos franceses não detêm qualquer bitcoin. A questão que se impõe é como, então, The Bitcoin Society atrairá “empreendedores de todos os perfis”, como o fundador repete com frequência. É complicado imaginar, por exemplo, um pequeno artesão padeiro a procurar esperança e simplicidade numa estrutura tão sofisticada. Mas, como se diz, sonhar ainda é grátis.
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