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A “galette do ano” de 2026: a galette de frangipane que pôs uma padaria de Paris no centro das atenções

Padeiro a servir fatia de bolo-rei num café com mesa de madeira e cafés expresso.

Numa rua discreta de Paris, uma galette de aspeto simples tornou-se tema de conversa entre gourmets e críticos da alta gastronomia.

A tradicional galette de frangipane, doce associado à celebração da Epifania em França, ganhou estatuto de estrela depois de conquistar um dos paladares mais exigentes do país: o do jornalista gastronómico François‑Régis Gaudry. A distinção colocou uma padaria de bairro sob os holofotes e levantou uma questão irresistível: o que torna esta receita tão especial ao ponto de ser chamada de “galette do ano”?

Uma galette de bairro que alcançou projeção nacional

A protagonista desta história é a galette de frangipane da boulangerie Pleincœur, situada no 17.º arrondissement de Paris. A casa anunciou nas redes sociais que a sua criação foi escolhida como “galette de l’année” por François‑Régis Gaudry, nome influente no panorama gastronómico francês, conhecido pelo seu olhar crítico, mas entusiasta, sobre receitas clássicas.

O que ele destacou foi precisamente o equilíbrio entre a massa folhada vienense e o recheio de frangipane enriquecido com rum e amêndoas. Sem efeitos cénicos nem decoração excessiva: a força da receita está na técnica, no ponto exato da massa e na textura cremosa do recheio.

A união entre uma massa ultracrocante e uma frangipane generosa e aromática transformou uma sobremesa familiar numa referência para 2026.

Num contexto em que grandes hotéis e pastelarias de luxo competem pela atenção com criações cada vez mais elaboradas, a vitória de uma padaria de bairro traz um certo espírito de “regresso ao essencial bem feito”, reforçando o valor do artesanato na pastelaria francesa.

O segredo do equilíbrio entre crocância e suavidade

Segundo o que foi divulgado na imprensa francesa, a massa folhada usada na galette da Pleincœur é do tipo viennois: mais leve, bem laminada e cozida até atingir uma crocância audível. Cada camada separa-se com facilidade, sem se tornar pesada nem gordurosa.

No interior, a frangipane surge numa camada generosa. A base leva amêndoas, manteiga, açúcar, ovos e um toque de rum, que perfuma sem se impor. O resultado é um creme denso, mas macio, que se mantém húmido mesmo depois de ir ao forno.

O contraste entre a crosta laminada e o interior macio cria a sensação de uma sobremesa “rica”, mas ainda assim fácil de comer até à última fatia.

Este tipo de equilíbrio exige um controlo minucioso da temperatura do forno, do tempo de repouso da massa e da escolha da manteiga. Nada disto é visível para quem está apenas ao balcão, mas revela-se logo no primeiro corte da faca: o folhado não colapsa, o recheio não escorre e o aroma de amêndoa sobe de imediato.

O toque do chef Maxime Frédéric

A galette tem a assinatura de Maxime Frédéric, chef pâtissier do hotel Cheval Blanc Paris e eleito Melhor Pasteleiro do Mundo em 2025. Na Pleincœur, trabalha em parceria com a sua “família de coração”, como costuma chamar à equipa, levando técnicas de alto nível para um ambiente mais descontraído.

A lógica é simples: pegar numa receita afetiva, ligada à infância de muitos franceses, e tratá-la com o mesmo rigor de uma grande sobremesa servida num restaurante estrelado. Sem perder o espírito de padaria de bairro, o produto final atinge um nível técnico que desperta a atenção de críticos e apaixonados por pastelaria.

Três galettes, três formas de celebrar a Epifania

A frangipane premiada é a grande estrela, mas não está sozinha. Para a temporada da Epifania de 2026, a Pleincœur preparou três versões de galette des rois, todas com a mesma base de massa folhada vienense.

  • Galette clássica de frangipane com amêndoas e toque de rum;
  • Uma versão mais criativa (não detalhada na fonte), pensada para quem aprecia sabores mais ousados;
  • Outra interpretação contemporânea, dirigida a quem procura texturas diferentes sem sair da tradição.

O objetivo da casa é agradar tanto ao público que não abdica da receita clássica como àqueles que têm curiosidade por combinações mais atuais. Em todos os casos, a promessa é a mesma: massa folhada trabalhada com cuidado, manteiga de origem controlada e recheios com elevada concentração de sabor.

O papel dos ingredientes de origem

Um dos pontos mais sublinhados pela padaria é a qualidade da matéria-prima. A manteiga utilizada vem da Normandia, região reconhecida pelos seus laticínios de sabor intenso. As amêndoas são escolhidas pela força aromática e o rum entra numa dose ajustada para perfumar, e não para esconder defeitos.

Quando a lista de ingredientes é curta, qualquer atalho torna-se evidente no paladar. Por isso, tudo gira em torno de uma boa manteiga, farinha bem escolhida e frutos secos frescos.

Esta abordagem mostra como a pastelaria francesa continua profundamente ligada ao terroir, conceito que associa o sabor ao local de origem dos ingredientes. Mesmo num produto vendido numa montra de bairro, existe toda uma rede de produtores e fornecedores por detrás de cada fatia.

Onde encontrar a “galette do ano” em Paris

Quem estiver em Paris durante a época da galette des rois pode provar a criação eleita “galette do ano” num endereço muito específico, no bairro das Batignolles:

Local Morada Horário
Boulangerie Pleincœur 64 rue des Batignolles, 75017, 17.º arrondissement Segunda a domingo, das 8h às 20h

A proposta da casa é oferecer um produto com nível de “palace” sem a formalidade de um grande hotel. O cliente entra, escolhe a galette ao balcão e leva-a para casa ou para partilhar ali por perto, num ambiente de bairro.

Para quem pensa comprar para um grupo maior, vale a pena considerar encomenda antecipada, já que o selo de “galette de l’année” costuma gerar filas e esgotar alguns tamanhos mais depressa, sobretudo nos fins de semana de janeiro.

Como tirar melhor partido da galette em casa

Uma galette bem feita pode perder parte do seu encanto se for servida à temperatura errada. A recomendação habitual em Paris é aquecê-la rapidamente no forno, entre 150 °C e 160 °C, durante poucos minutos, apenas para devolver crocância à massa e realçar o perfume da frangipane.

Outra questão importante é o acompanhamento. Café de filtro mais encorpado, chá preto ou um espumante brut costumam harmonizar bem com o lado amanteigado e ligeiramente alcoólico do recheio. Quem preferir algo sem álcool pode optar por chá de frutos secos ou por uma infusão de baunilha com leite.

O que é, afinal, frangipane?

Para quem não conhece bem o termo, frangipane é um creme à base de amêndoas usado para rechear tartes e galettes. A versão clássica combina:

  • Creme de amêndoas (amêndoas moídas, açúcar, manteiga, ovos);
  • Creme pasteleiro, que lhe dá leveza e uma textura mais sedosa.

Na prática, o resultado final lembra um recheio de maçapão mais macio, húmido e aromático, sem a sensação pesada que algumas pastas de amêndoa podem ter. O toque de rum, comum nas receitas francesas, reforça os aromas dos frutos secos e acrescenta uma camada extra de complexidade.

Porque é que este tipo de prémio mexe com a pastelaria

Um título como “galette do ano” não se limita ao elogio. Para uma padaria de bairro, pode significar aumento do fluxo de clientes, necessidade de reorganizar a produção e até mudanças no atendimento, já que turistas e curiosos passam a partilhar a fila com os moradores habituais.

Para o público português e brasileiro que acompanha tendências gastronómicas vindas de França, este tipo de reconhecimento ajuda a identificar movimentos mais amplos: valorização da técnica clássica, regresso a receitas de família com acabamento refinado e atenção crescente à origem da manteiga, da farinha e dos frutos secos.

Quem gosta de cozinhar também pode olhar para este caso como fonte de inspiração. Experimentar uma galette de frangipane em casa, mesmo com ingredientes locais, ajuda a perceber na prática como a textura, a laminação da massa e o ponto do creme se conjugam. Mesmo sem atingir o nível de uma pastelaria parisiense, o exercício oferece aprendizagem sobre equilíbrio de gordura, doçura e aroma - algo que se aplica a muitas outras sobremesas de massa folhada.

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