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A TotalEnergies aumentou a produção de petróleo no Brasil em 25.000 barris por dia, o país onde tem os custos de produção mais baixos.

Trabalhador com fato de segurança vermelho e capacete branco observa plataforma de petróleo eólicas ao pôr do sol.

A TotalEnergies ligou um novo projecto offshore na Bacia de Santos, no Brasil, trazendo barris adicionais a partir de uma plataforma já existente e reforçando a aposta num país onde consegue produzir petróleo a alguns dos custos mais baixos do mundo.

Os barris mais baratos do Brasil: porque é que a TotalEnergies está a abrir a torneira

A 11 de março de 2026, a TotalEnergies confirmou o primeiro petróleo do projecto Lapa South-West, uma extensão do campo de Lapa, situado a cerca de 300 quilómetros da costa brasileira, na Bacia de Santos.

O grupo francês perfurou três novos poços de produção e ligou-os a uma unidade flutuante de produção, armazenamento e descarga (FPSO) que já estava em operação no campo.

Esta ligação acrescenta cerca de 25.000 barris de petróleo por dia à produção de Lapa, sem os custos de construir uma nova plataforma.

Este volume adicional pode parecer limitado face aos milhões de barris produzidos diariamente no mundo, mas encaixa bem no plano mais amplo da TotalEnergies: aumentar a produção global em cerca de 3% por ano até 2030, dando prioridade a projectos de baixo custo e margens elevadas.

No mercado actual, a localização pesa tanto como o volume. Os campos offshore do pré-sal brasileiro transformaram-se nalguns dos barris mais rentáveis para as petrolíferas internacionais, sobretudo em períodos de maior volatilidade dos preços.

A Bacia de Santos, a potência brasileira do deepwater

Lapa South-West está localizada na Bacia de Santos, uma região de águas profundas ao largo dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo que se tornou um dos principais centros mundiais de petróleo offshore.

Aqui, os reservatórios encontram-se sob uma espessa camada de sal, a vários quilómetros abaixo do fundo do mar. São os chamados campos do pré-sal. A perfuração é tecnologicamente exigente, mas os poços tendem a ser muito produtivos e a apresentar caudais elevados.

Nos últimos 15 anos, as descobertas no pré-sal transformaram o Brasil de importador líquido em grande exportador.

  • A Petrobras, gigante estatal brasileira, produziu cerca de 2,4 milhões de barris por dia em 2025.
  • Mais de 70% desse volume veio de campos do pré-sal.
  • O país exporta hoje mais de 1,5 milhões de barris por dia, colocando-se entre os principais exportadores mundiais de crude.

Grande parte desta produção vem de uma frota crescente de FPSO a operar no offshore. Cerca de 30 unidades já estão em serviço, com aproximadamente mais 15 previstas até 2026, cada uma funcionando como uma fábrica flutuante capaz de processar, armazenar e transferir petróleo para navios-tanque.

O Brasil quer elevar a produção total para perto de 3 milhões de barris por dia até 2030, apoiando-se fortemente no crescimento do pré-sal.

Para empresas como a TotalEnergies, este contexto oferece escala e custos relativamente baixos. Os custos de produção no pré-sal brasileiro estão hoje estimados em cerca de 30 a 40 dólares por barril, com expectativas de poderem cair abaixo dos 30 dólares à medida que a tecnologia e a eficiência avancem.

Como a configuração com FPSO ajuda a reduzir custos

O projecto Lapa South-West mostra bem o atractivo dos desenvolvimentos em “tie-back”. Em vez de construir uma nova plataforma fixa, a TotalEnergies ligou três novos poços a um FPSO já instalado no local.

  • Sem necessidade de fabricar e rebocar uma nova grande estrutura offshore.
  • Infra-estrutura submarina adicional mais limitada do que num projecto autónomo.
  • Calendário mais rápido entre a decisão de investimento e o primeiro petróleo.
  • Menor investimento de capital por barril produzido.

Um FPSO (unidade flutuante de produção, armazenamento e descarga) funciona como uma instalação autónoma. Separa petróleo, gás e água, armazena o crude no casco e transfere-o para navios. Isto torna-o especialmente adequado para águas muito profundas, onde plataformas fixas ao fundo do mar são pouco práticas ou economicamente desvantajosas.

A TotalEnergies aprofunda a sua presença no Brasil

A TotalEnergies está presente no Brasil há quase cinco décadas. O país ocupa agora uma posição central no portefólio upstream da empresa.

Cerca de 4.000 trabalhadores e prestadores de serviços operam para o grupo no Brasil, abrangendo petróleo e gás, electricidade e lubrificantes. Em 2025, a produção da TotalEnergies no país atingiu em média cerca de 184.500 barris de óleo equivalente por dia, tornando o Brasil num dos seus principais motores de crescimento.

A empresa não está sozinha. Todas as grandes petrolíferas internacionais, da Shell à Equinor, disputam participações nos campos deepwater brasileiros. O que distingue a TotalEnergies é a combinação entre crescimento rápido no petróleo e uma expansão paralela em projectos de baixo carbono.

Uma carteira de megaprojectos offshore

Lapa South-West faz parte de uma vaga mais ampla de desenvolvimentos ligados aos reservatórios do pré-sal brasileiro.

Em maio de 2025, a TotalEnergies arrancou a produção em Mero-4, outro grande projecto do pré-sal, com mais fases já previstas na mesma área. Mais à frente, estão planeados dois desenvolvimentos de peso para 2029:

  • Atapu-2, a segunda fase num dos polos mais produtivos do pré-sal brasileiro.
  • Sépia-2, que amplia outro campo deepwater na Bacia de Santos.

Em conjunto, estes projectos deverão apoiar o objectivo da empresa de crescimento regular da produção, mantendo disciplina no investimento e nas emissões por barril.

Equilibrar o crescimento do petróleo com as renováveis no Brasil

O Brasil não é apenas um foco de perfuração para a TotalEnergies. O grupo está também a usar o país como terreno de teste para a sua estratégia “dual”: hidrocarbonetos de elevado retorno combinados com uma forte expansão nas energias renováveis.

Em 2022, a TotalEnergies estabeleceu uma parceria com a Casa dos Ventos, uma das principais promotoras brasileiras de renováveis. O objectivo é construir um portefólio de cerca de 12 gigawatts de capacidade eólica e solar no país.

A mesma costa que acolhe plataformas em águas profundas poderá em breve também sustentar enormes parques eólicos em terra e no mar a alimentar a rede eléctrica brasileira.

O sector eléctrico brasileiro já depende fortemente da energia hídrica, mas as secas recorrentes expuseram fragilidades. Acrescentar mais capacidade eólica e solar pode ajudar a estabilizar o fornecimento, ao mesmo tempo que grandes grupos industriais como a TotalEnergies vêem aí uma oportunidade para fornecer electricidade limpa tanto às suas próprias operações como ao mercado em geral.

Como o petróleo barato do Brasil influencia os mercados globais

A capacidade do Brasil para produzir grandes volumes a custos relativamente baixos tem implicações globais. Em períodos de queda do preço do petróleo, campos mais caros noutras regiões podem deixar de ser viáveis, enquanto projectos como Lapa, Atapu ou Sépia continuam rentáveis durante mais tempo.

Para as mesas de trading em Londres, Houston ou Singapura, os barris brasileiros são cada vez mais uma referência. Tendem a ser crudes médios a leves, procurados por refinarias asiáticas e europeias que procuram reduzir a dependência de fornecimentos do Médio Oriente ou da Rússia.

Factor Pré-sal brasileiro Offshore típico de custo elevado
Custo de produção ~30–40 $/bbl, com tendência de descida 50–70 $/bbl
Profundidade da água 2.000–2.500 m Muitas vezes <500 m
Modelo de desenvolvimento Baseado em FPSO, com tie-backs frequentes Plataformas fixas, polos autónomos
Foco na exportação Forte, >1,5 Mb/d exportados Variável, muitas vezes orientado para o mercado interno

Esta vantagem de custo também dá ao Brasil e aos seus parceiros maior margem nas negociações climáticas. Enquanto a procura global por petróleo se mantiver elevada, os produtores com custos mais baixos tendem a vender os últimos barris.

Debate climático, COP30 e pressão política

A expansão do sector offshore brasileiro acontece numa altura em que o país se prepara para acolher a COP30, a principal cimeira climática da ONU, em 2025. Esse calendário está a intensificar o escrutínio sobre até que ponto o Brasil pode acelerar o crescimento do petróleo e, ao mesmo tempo, prometer cortes profundos nas emissões.

Os barris do pré-sal têm uma intensidade carbónica relativamente baixa quando comparados com alguns petróleos pesados ou com campos marcados por forte flaring, mas continuam a ser combustíveis fósseis queimados em motores e centrais eléctricas em todo o mundo. Organizações ambientalistas argumentam que novos projectos correm o risco de fixar emissões para lá dos limites definidos pelo Acordo de Paris.

O governo brasileiro aposta que as receitas do pré-sal podem ajudar a financiar uma transição energética mais rápida e programas sociais. Empresas como a TotalEnergies defendem que a combinação entre hidrocarbonetos e renováveis no seu portefólio as coloca numa posição mais sólida para uma mudança gradual.

Termos-chave e o que significam para os leitores

Para quem está fora da indústria, alguma da linguagem usada nestes projectos pode ser confusa. Há alguns conceitos úteis para perceber melhor o que está em causa:

  • Pré-sal: Reservatórios offshore profundos presos sob uma espessa camada de sal. São complexos de atingir, mas frequentemente ricos em crude de elevada qualidade.
  • FPSO: Instalação em forma de navio que produz, armazena e descarrega petróleo. Permite desenvolver campos remotos em águas profundas sem plataformas fixas.
  • Tie-back: Ligação de novos poços ou reservatórios menores a infra-estruturas já existentes. Reduz o investimento adicional e acelera a entrada de novos volumes.
  • Barril de óleo equivalente (boe): Unidade que converte volumes de gás numa medida equivalente em petróleo, permitindo comparar produções mistas de petróleo e gás.

Se a procura por petróleo cair mais depressa do que o previsto - por exemplo, devido à rápida adopção de veículos eléctricos ou a políticas climáticas mais exigentes - produtores de baixo custo como o Brasil e os seus parceiros estarão melhor posicionados para continuar a produzir, enquanto os produtores mais caros recuam primeiro. Nesse cenário, projectos como Lapa South-West poderão manter-se activos mesmo com uma queda da procura induzida por metas climáticas mais rigorosas.

Por outro lado, um período prolongado de preços elevados do petróleo pode levar o Brasil a acelerar ainda mais os desenvolvimentos offshore. Isso geraria receitas adicionais de exportação e mais investimento estrangeiro, mas também levantaria dúvidas sobre a velocidade a que o país conseguirá descarbonizar a sua base industrial em crescimento e as suas grandes cidades. Para a TotalEnergies, o desafio passa por continuar a extrair valor dos “barris mais baratos” do Brasil, ao mesmo tempo que convence investidores e decisores políticos de que a sua aposta nas renováveis no mesmo país avança com igual rapidez.

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