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O Reino Unido bate recorde de energia eólica offshore com 22,7 GW e mais de metade da eletricidade vem do vento.

Engenheiro em colete refletor e capacete a operar tablet numa plataforma offshore com turbinas eólicas no mar.

Numa noite fria e ventosa de meados de novembro, a frota britânica de energia eólica - em especial a eólica offshore - ultrapassou discretamente uma fasquia simbólica. Enquanto a maioria das pessoas aumentava o aquecimento e punha chaleiras ao lume, as turbinas no Mar do Norte giravam com intensidade suficiente para, durante algumas horas decisivas, alterar o retrato do sistema elétrico do país.

Noite recorde do vento: 22,7 GW e uma nova referência

A 11 de novembro de 2025, ventos fortes a varrer o norte de Inglaterra e a costa escocesa levaram milhares de turbinas, tanto offshore como em terra, a operar perto do limite. De acordo com o Operador Nacional do Sistema Energético (Neso), a produção eólica atingiu um máximo histórico de 22,7 gigawatts (GW) - o valor mais elevado alguma vez registado na Grã‑Bretanha.

No pico, só a energia eólica teria capacidade para abastecer o equivalente a cerca de 22 milhões de casas. Dito de outra forma: num momento de procura elevada, quando a rede costuma recorrer mais ao gás, o vento estava praticamente a cobrir quase todos os agregados familiares do país.

A energia eólica forneceu 55,7% da eletricidade britânica a 11 de novembro, com mais de 22,7 GW a chegar de turbinas em terra e no mar.

Os números do Neso mostram que, nessa noite, 43,6% da eletricidade veio de parques eólicos ligados à rede nacional de transporte. Outros 12,1% resultaram da chamada geração eólica embebida - projetos de menor dimensão e redes locais que injetam energia diretamente em redes regionais, sem passar por linhas de muito alta tensão.

A soma destes dois contributos elevou a quota total do vento para 55,7%, uma linha psicológica para um sistema elétrico que, historicamente, esteve assente no gás natural e, antes disso, no carvão.

O retrato completo do sistema elétrico britânico a 11 de novembro

Nenhuma rede moderna funciona apenas com uma tecnologia, mesmo quando o tempo ajuda. Naquela noite, embora o vento tenha feito a maior parte do trabalho, outras fontes continuaram a assegurar equilíbrio e flexibilidade.

Os dados do Neso oferecem mais uma fotografia de transição do que uma “revolução” instantânea:

Fonte de energia Percentagem da produção Casas abastecidas (equivalente)
Eólica (rede nacional) 43,6% 17,2 milhões
Eólica (redes locais) 12,1% 4,8 milhões
Gás natural 12,5% 4,9 milhões
Interligações (importações) 11,3% 4,4 milhões
Nuclear 8% 3,1 milhões
Biomassa 8% 3,1 milhões
Hídrica 1,4% 560 000
Armazenamento 1,1% 440 000

Mesmo com a eólica em máximos, o gás ainda garantiu cerca de um oitavo da produção, funcionando como suporte quando há alterações rápidas na procura ou na velocidade do vento. A nuclear e a biomassa deram um contributo mais estável, e as importações por interligações submarinas ajudaram a ajustar a diferença entre produção nacional variável e picos de consumo.

O armazenamento manteve-se contido, com 1,1%, mas a sua importância ultrapassa a percentagem. Baterias e centrais de armazenamento por bombagem estão cada vez mais vocacionadas para variações de curtíssimo prazo, alisando subidas e descidas repentinas da eólica e reduzindo a necessidade de as centrais fósseis aumentarem potência com tanta frequência.

A combinação crescente de eólica, nuclear, biomassa, hídrica e armazenamento revela uma rede menos dependente do gás e a perder, passo a passo, o hábito dos combustíveis fósseis.

Mais do que um pico: porque é que este recorde conta

Menor exposição à volatilidade do gás e do petróleo

Quando o vento sopra, o preço da eletricidade tende a baixar, porque os parques eólicos não precisam de combustível importado. Não dependem de contratos de gás, falhas em gasodutos ou oscilações diárias nos mercados de petróleo e de gás natural liquefeito.

Depois de instaladas as turbinas e de ligados os cabos à costa, os custos de exploração tornam-se relativamente previsíveis. Há manutenção, seguros, financiamento e tarifas de rede - mas não existe uma fatura permanente de combustível. Cada megawatt-hora produzido substitui eletricidade que poderia vir de centrais a gás, com efeitos diretos nas faturas em períodos de mercado apertado.

Isto não significa eletricidade barata todos os dias. Em dias de calmaria, o sistema continua a apoiar-se no gás e nas importações. Ainda assim, cada noite muito ventosa que bate recordes mostra até que ponto a procura de gás pode encolher quando as condições meteorológicas e a coordenação do sistema alinham.

Clima, qualidade do ar e efeitos na indústria local

Cada gigawatt-hora eólico reduz emissões face ao gás ou ao carvão. A eólica offshore não tem emissões diretas de CO₂, nem libertação local de partículas, nem óxidos de azoto no ponto de geração. Isso ajuda o Reino Unido a cumprir os seus orçamentos de carbono previstos na Lei das Alterações Climáticas e contribui, gradualmente, para melhorar a qualidade do ar - sobretudo em regiões que reduziram o carvão e em centros urbanos com menos centrais fósseis.

Há também um lado industrial claro. Portos britânicos, de Hull a Teesside, têm vindo a reposicionar-se como polos da eólica offshore, movimentando pás, fundações, plataformas conversoras e cabos submarinos. O recorde de 22,7 GW não serviu apenas para iluminar casas: foi o reflexo de anos de investimento em cadeias de fornecimento, formação e infraestruturas portuárias.

Além disso, à medida que a potência instalada cresce, aumenta a importância do que acontece em terra: reforços de linhas, subestações, conversão em corrente contínua de alta tensão e planeamento de ligações para reduzir constrangimentos. Sem estas obras, parte da produção acaba por ser limitada (curtailment) em dias muito ventosos - um desperdício que as regras de mercado e a expansão da rede procuram minimizar.

Também a dimensão ambiental ganha peso. A construção e operação no Mar do Norte exigem medidas de mitigação para proteger aves marinhas e mamíferos, bem como coordenação com pesca e rotas marítimas. O avanço da eólica offshore depende tanto de engenharia e cabos como de licenciamento e coexistência no espaço marítimo.

Gigantes offshore: a era de Dogger Bank

Dogger Bank e outros parques eólicos offshore do Mar do Norte

Grande parte deste impulso vem de projetos offshore de grande escala, que transformaram o Mar do Norte numa vasta frente de construção. Dogger Bank, um banco de areia pouco profundo a cerca de 130 km da costa nordeste de Inglaterra, acolhe o que virá a ser o maior complexo eólico offshore do mundo.

O empreendimento, construído em três fases - Dogger Bank A, B e C - deverá chegar a cerca de 3,6 GW de capacidade instalada quando estiver concluído. É uma potência superior à de algumas centrais nucleares, obtida através de centenas de turbinas implantadas longe da linha de costa.

Dogger Bank não é caso único. O Reino Unido reúne vários dos maiores parques eólicos offshore do planeta, muitos já a contribuir para a produção durante o recorde de novembro.

Os maiores parques eólicos offshore do mundo (atualmente)

  • Dogger Bank (Reino Unido): capacidade planeada de 3 600 MW em três fases, com 277 turbinas previstas entre 2023 e 2026.
  • Hornsea 2 (Reino Unido): 1 386 MW a partir de 165 turbinas no Mar do Norte, em operação comercial desde 2022.
  • Hornsea 1 (Reino Unido): 1 218 MW, um dos primeiros projetos offshore de megaescala quando entrou em serviço em 2020.
  • Walney Extension (Reino Unido): 659 MW no Mar da Irlanda, comissionado em 2018.
  • Borssele 1 e 2 (Países Baixos): 752 MW, um projeto-chave no Mar do Norte fora das águas britânicas.

Estes projetos tiram partido de economias de escala: turbinas maiores capturam mais energia por fundação, os cabos submarinos transportam potências superiores e os operadores de rede conseguem gerir a injeção a partir de menos pontos de ligação, em vez de centenas de ligações pequenas dispersas.

Dogger Bank e o conjunto Hornsea funcionam cada vez mais como infraestrutura de base, influenciando a forma como o Reino Unido planeia e opera o seu sistema elétrico na década de 2030.

Até onde pode o Reino Unido chegar rumo a uma rede de zero carbono?

A possibilidade de horas sem combustíveis fósseis

A diretora de operações do Neso, Kayte O’Neill, tem defendido repetidamente que a Grã‑Bretanha poderá operar a sua rede com zero emissões diretas de CO₂ durante várias horas seguidas e, mais tarde, durante dias inteiros. O país já viveu períodos sem carvão no sistema; o passo seguinte é estender essa lógica ao gás.

Para sustentar esse objetivo por mais tempo, são necessários três pilares: mais capacidade de produção com baixo carbono, mais flexibilidade e procura mais inteligente. O recorde de 11 de novembro mostrou sobretudo o primeiro ponto, mas também sugeriu avanços nos outros dois.

Do lado da flexibilidade, baterias e instalações de bombagem absorvem excedentes breves e devolvem energia quando há falhas. As interligações com a Noruega, França, Bélgica, Países Baixos e Dinamarca funcionam como válvulas de segurança em períodos regionais de escassez ou excesso. Programas de resposta do lado da procura pedem às empresas - e, gradualmente, a mais famílias - que desloquem parte do consumo para fora das horas de ponta em troca de poupanças.

O desafio da intermitência, sem jargão

O vento não sopra por encomenda. Quando a produção cai rapidamente, os gestores do sistema precisam de alternativas que consigam aumentar potência em minutos, ou mesmo em segundos. As turbinas a gás continuam a desempenhar esse papel, mas o armazenamento, a hídrica e a procura flexível estão a conquistar espaço.

Em termos de potencial técnico, 22,7 GW impressionam. A questão mais exigente é a da fiabilidade: será possível manter quotas elevadas de eólica não apenas em dias recorde, mas também durante semanas de inverno mais monótonas e amenas, com procura elevada e vento fraco?

É aqui que entram modelação e planeamento. Os operadores recorrem a previsões meteorológicas, simulações probabilísticas e séries históricas para estimar quanta capacidade “despachável” deve ficar de reserva. A eólica offshore tende a ser mais regular do que a eólica em terra, mas até as frotas no mar enfrentam pausas quando sistemas de alta pressão se instalam sobre o Mar do Norte.

O que muda para famílias, investidores e políticas públicas

Para as famílias, o sinal é ambivalente, mas encorajador. As faturas não caem de um dia para o outro por causa de uma noite ventosa. Com o tempo, porém, cada gigawatt adicional de produção eólica de baixo custo deverá reduzir a exposição a choques de preços do gás importado. O recorde mostrou até onde a eólica consegue ir para cortar a procura de gás em momentos críticos - precisamente aqueles que alimentaram crises anteriores de preços grossistas.

Para os investidores, o marco é mais um indício de que o Reino Unido continua entre os mercados de eólica offshore mais ativos do mundo. Projetos como Dogger Bank, Hornsea e novos planos de eólica flutuante assentam na premissa de que a rede consegue absorver grandes volumes de produção variável e de que o apoio político se manterá relativamente estável. Este episódio de novembro reforça essa leitura.

Para os decisores políticos, os números colocam à prova a meta de 2030: obter cerca de 95% da eletricidade britânica a partir de fontes de baixo carbono. A eólica e a solar terão de combinar-se com extensões de vida da nuclear, possivelmente novos reatores, mais armazenamento flexível e medidas do lado da procura para manter a segurança de abastecimento sem pressionar os preços.

Do ponto de vista técnico, o evento de 11 de novembro funciona como um teste real. Os operadores podem analisar dados de frequência, taxas de rampa, pagamentos por constrangimentos e episódios de limitação de produção para afinar regras futuras do mercado. Isso ajuda a responder a questões práticas como: quanta capacidade de baterias deve ser incentivada, onde reforçar linhas da rede e como remunerar a flexibilidade para que empresas ajustem o consumo.

Para quem tenta perceber, na prática, a diferença entre ter 30%, 50% ou 70% de eólica numa rede, este recorde é um estudo de caso vivo. Engenheiros irão observar a rapidez com que as centrais a gás reduziram potência, como as importações reagiram e de que forma o armazenamento respondeu. Economistas irão acompanhar oscilações no preço grossista. E comunidades costeiras poderão usar estes dados para sustentar posições a favor - ou contra - novos pedidos de licenciamento.

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