A Geração Z - grosso modo, quem hoje tem entre 12 e 27 anos - é muitas vezes descrita como uma “geração perdida”: o custo de vida disparou, os salários não acompanham, e a habitação é escassa e frequentemente incomportável. Ainda assim, uma análise recente da Bank of America aponta para um cenário quase oposto: este mesmo grupo etário pode estar a caminho de se tornar a força financeira mais poderosa da história.
Como uma geração tida como “pobre” pode tornar-se a mais rica
No dia a dia, a fotografia parece pouco animadora. Vários estudos indicam que, em muitos países, um emprego a tempo inteiro pelo salário mínimo mal chega para cobrir renda, energia, alimentação e transportes. Nos dados compilados pela Bank of America surge um número particularmente duro: em alguns mercados, seria teoricamente necessário 146% do salário mínimo apenas para pagar as despesas correntes.
Apesar disso, a mesma leitura sublinha um ponto-chave: quem nasceu entre meados da década de 1990 e o início da década de 2010 já acumulou, à escala global e em apenas dois anos, cerca de 9 biliões de dólares em património. A projeção é que este montante atinja 36 biliões até 2030 e suba para aproximadamente 74 biliões até 2040.
Hoje, a Geração Z partilha quartos em casas partilhadas; amanhã, poderá controlar volumes de património que os avós dificilmente imaginariam.
Este contraste entre a sensação de aperto financeiro atual e a riqueza estimada para o futuro conduz ao megatema de que o setor financeiro fala há anos: a grande transferência de riqueza de gerações mais velhas para as mais novas.
A “grande transferência de riqueza”: 84 biliões mudam de mãos
Por detrás das previsões está um processo prolongado: nos EUA e noutras regiões ricas, os baby boomers estão a envelhecer - e com eles aproxima-se um ciclo de heranças em escala histórica. Com base em cálculos usados pela Bank of America, até cerca de 2045 deverão transitar entre gerações ativos num total de 84 biliões de dólares.
É verdade que quem tende a beneficiar primeiro é a Geração X e os Millennials (aproximadamente entre os 30 e os 50 anos). Ainda assim, a análise assume que cerca de 38% da Geração Z acabará por receber uma fatia relevante. Em termos práticos: não serão todos, mas uma parte considerável dos jovens adultos de hoje poderá vir a contar com imóveis, carteiras de valores mobiliários ou participações empresariais construídas por pais e avós.
- Património hoje: fortemente concentrado nos baby boomers
- Fase de passagem: heranças e doações a avançar gradualmente para a Geração X e os Millennials
- Etapa seguinte: parte dessa riqueza chega, mais tarde, à Geração Z
- Efeito: aumento do peso financeiro dos mais novos no consumo, nos mercados e na política
Para bancos, investidores e grandes empresas, esta trajetória é uma das decisões estruturais mais relevantes das próximas duas décadas. Afinal, quem detém capital define também para onde ele vai: que produtos crescem, que setores se financiam e que tecnologias ganham escala.
Porque é que a realidade da Geração Z hoje parece tão distante destas projeções
Mesmo com números gigantes no horizonte, muitos jovens vivem encostados às cordas. Rendas elevadas atrasam a saída de casa dos pais; nas grandes cidades, o rendimento e o apoio familiar podem decidir se estudar numa zona cara é viável. Para agravar, contratos a prazo, estágios e primeiras experiências profissionais mal pagas empurram o início da acumulação de património para mais tarde.
A Bank of America insiste que é essencial separar duas fases: a etapa de entrada no mercado de trabalho - frequentemente frágil do ponto de vista financeiro - e os anos em que os salários evoluem e, posteriormente, entram heranças. Entre uma e outra abre-se uma distância que muitos sentem como “stress geracional”.
O património de amanhã não apaga o choque da renda de hoje - mas pode virar a balança de influência.
Há ainda um fator adicional a considerar no contexto português e europeu: o acesso ao crédito e às garantias iniciais (entrada para habitação, fiadores, poupança) tende a criar diferenças muito cedo. Assim, mesmo antes de qualquer herança, a desigualdade pode consolidar-se pela via do arrendamento caro, da dificuldade de poupar e das condições de financiamento.
Como a Geração Z consome - e porque o sistema económico fica nervoso
O estudo descreve que as prioridades de consumo dos jovens adultos já mudaram de forma visível. Com a compra de casa fora do alcance de muitos e a formação de família frequentemente adiada, o dinheiro é canalizado para outras escolhas:
- Viagens e escapadinhas, em vez de entrada para uma casa própria
- Compras online e modelos de subscrição, em vez do tradicional depósito a prazo
- Bem-estar, fitness e saúde mental, em vez de consumo “a crédito” para símbolos de estatuto
- Produtos sustentáveis e marcas com valores claros, em vez de consumo indiferenciado
Segundo a Bank of America, a Geração Z está a transformar-se numa das mais “disruptivas” gerações de consumidores. A pressão sobre as empresas aumenta: para manter clientes mais jovens, já não chega oferecer descontos; é preciso transparência, alinhamento com valores e experiências digitais consistentes.
Impacto da Geração Z na habitação, na banca e na política
Se uma parte relevante das poupanças e heranças vier a cair nas mãos de pessoas que hoje vivem sob crise habitacional e ansiedade climática, o destino desse dinheiro tende a mudar. Entre os cenários frequentemente discutidos no setor financeiro, destacam-se:
- mais capital a entrar em investimento sustentável e tecnologias verdes
- pressão sobre o mercado imobiliário para soluções de habitação mais flexíveis
- maior procura por trabalho com propósito, não apenas por aumentos salariais
Também a política terá de se ajustar a uma geração que pode herdar património, mas que o poderá usar de forma diferente da dos seus antecessores. A fiscalidade, as regras de herança e o financiamento das reformas voltam, assim, ao centro do debate público.
Um ponto cada vez mais observado é a forma como esta geração se relaciona com o digital na gestão do dinheiro: aplicações de investimento, carteiras online e novas plataformas reduzem barreiras de entrada, mas também amplificam riscos (custos escondidos, decisões impulsivas e desinformação). Isso pode influenciar tanto a regulação como a forma de atuação da banca tradicional.
Quem fica de fora: a fratura dentro da própria geração
Os números otimistas escondem uma realidade difícil: nem toda a Geração Z vai enriquecer. Quem vem de famílias sem património relevante tende a depender quase exclusivamente do salário. Vários estudos sugerem, aliás, que a desigualdade pode agravar-se dentro da própria Geração Z.
Alguns jovens herdarão casas, ações e participações em empresas. Outros suportarão apenas o peso do custo de vida e a instabilidade do mercado de trabalho - sem que exista, mais tarde, qualquer “chuva” patrimonial. A distância entre quem herda e quem não herda arrisca-se, portanto, a aumentar.
A questão não é tanto “quão rica será a Geração Z, em média?”, mas sim “quem, dentro da geração, vai realmente receber uma parte?”
O que pais e jovens já podem fazer hoje
Para famílias que tencionam transferir património, o que conta é a preparação atempada. Há anos que especialistas recomendam avaliar doações em vida, clarificar a titularidade de imóveis e garantir que irmãos e herdeiros são tratados com equidade. Quanto mais claros forem contratos, procurações e regras, menor a probabilidade de conflitos quando chegar o momento.
Para os jovens adultos, a mensagem é simples: não faz sentido depender apenas de uma herança futura. Três frentes podem ser trabalhadas já:
- Literacia financeira: noções de juros, ETFs, dívidas e impostos evitam erros caros.
- Gestão de dívida: evitar crédito ao consumo e descobertos; reduzir rapidamente o que for inevitável.
- Poupança e proteção diversificadas: mesmo com montantes pequenos, poupar ou investir com regularidade, em vez de colocar tudo em consumo imediato.
Porque estas previsões devem ser levadas a sério, apesar da incerteza
É evidente que estas projeções assentam em pressupostos: crises económicas, guerras, mudanças políticas ou novas tecnologias podem travar ou acelerar tendências. Ainda assim, o cálculo parte de um facto incontornável: o património acumulado pelas gerações mais velhas existe - e não é enterrado com elas.
Que uma geração hoje marcada por filas para resolver problemas de habitação possa amanhã figurar entre os investidores mais influentes de sempre parece contraditório. Mas é precisamente essa tensão que explica por que motivo bancos, empresas e governos analisam a Geração Z com tanta atenção: compreender como pensa esta geração é antecipar como vão mudar os fluxos de dinheiro, os mercados e as relações de poder nas próximas décadas.
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