Novas investigações indicam que, para permanecermos dentro dos limites ambientais da Terra, será necessário repensar de forma profunda a quantidade de carne que consumimos, a frequência com que a comemos e os tipos de carne que colocamos no carrinho de compras.
Porque é que os cientistas estão a analisar a carne com tanta atenção
A carne é, há muito tempo, um elemento central na alimentação e na cultura, desde os assados de domingo aos churrascos de verão. No entanto, a forma como é produzida atualmente pesa fortemente no clima. A pecuária ocupa terra e água em grande escala e emite quantidades elevadas de gases com efeito de estufa, em particular metano proveniente do gado bovino.
Segundo dados globais de 2022, em França consumiram-se mais de 82 quilogramas de carne por pessoa ao longo do ano, excluindo peixe e marisco. Nos Estados Unidos, esse valor subiu para cerca de 121 quilogramas. A média mundial ficou bastante abaixo, em aproximadamente 43 quilogramas por pessoa.
Investigadores da Universidade Técnica da Dinamarca colocaram uma questão direta: existirá um nível de consumo de carne que permita continuar a ingerir produtos de origem animal sem ultrapassar os limites ambientais da produção alimentar?
O estudo conclui que o consumo atual de carne nos países ricos é várias vezes superior ao que o planeta consegue sustentar a longo prazo.
Carne e a sua fatura climática
Para perceber porque é que os cientistas se concentram na carne, vale a pena observar as emissões por quilograma de alimento produzido. As Nações Unidas reuniram estimativas das emissões de gases com efeito de estufa associadas a diferentes alimentos, expressas em quilogramas de “CO2 equivalente”. Esta unidade junta dióxido de carbono, metano e óxido nitroso numa única medida climática.
Produzir um quilograma de alguns alimentos comuns gera aproximadamente:
- Carne de vaca: 70,6 kg CO2-equivalente
- Borrego: 39,7 kg CO2-equivalente
- Carne de porco: 12,3 kg CO2-equivalente
- Aves: 9,9 kg CO2-equivalente
- Marisco (média): 26,9 kg CO2-equivalente
- Queijo: 23,9 kg CO2-equivalente
- Peixe (média): 13,9 kg CO2-equivalente
Os produtos de origem vegetal surgem muito mais abaixo nesta escala. Um quilograma de frutos secos está associado a cerca de 0,4 kg CO2-equivalente. A fruta ronda os 0,9 e os vegetais cerca de 0,7.
A carne de vaca e o borrego estão no topo da tabela de emissões, enquanto os frutos secos, a fruta e os vegetais ficam na base com uma diferença muito expressiva.
Estes valores não refletem apenas o que acontece na exploração agrícola. Incluem também o uso do solo, a produção de ração, fertilizantes, estrume e outros elementos que compõem a pegada climática total de cada alimento.
O número central: 225 gramas de carne por semana
A resposta da equipa dinamarquesa é clara: se o objetivo for um sistema alimentar que respeite os limites planetários, a carne tem de passar a ter um papel secundário, e não ser o centro do prato.
Os investigadores estimam que um nível ambientalmente sustentável de consumo de carne seria de cerca de 225 gramas por pessoa por semana. Para ter uma ideia da escala, isso corresponde a mais ou menos dois bifes de frango ou duas costeletas de porco.
Do ponto de vista climático, as 225 gramas de carne por semana são apresentadas como um orçamento global por pessoa, e não como uma meta apenas para países com consumo elevado.
Carne vermelha praticamente fora do menu
O estudo vai mais longe quanto ao tipo de carne. A carne de vaca e outras carnes vermelhas quase não têm lugar neste cenário. A autora principal, Caroline Gebara, explica que mesmo quantidades moderadas de carne vermelha numa dieta média entram em conflito com aquilo que a Terra consegue regenerar em recursos, quando se consideram as pressões climáticas e ambientais.
Na prática, este limite de 225 gramas seria provavelmente preenchido sobretudo por opções de menor impacto, como aves e alguma carne de porco, ficando a carne de vaca e o borrego reservados para ocasiões muito esporádicas, se forem consumidos de todo.
Até que ponto as dietas atuais estão longe da meta
Comparar este limite semanal com os hábitos reais ajuda a perceber a dimensão do desafio.
| País/região | Consumo anual atual por pessoa (aprox.) | Equivalente por semana |
|---|---|---|
| França | 82 kg | ~1,58 kg |
| Estados Unidos | 121 kg | ~2,33 kg |
| Média global | 43 kg | ~0,83 kg |
Em França, a quantidade semanal recomendada aproxima-se daquilo que muitas pessoas comem atualmente num único dia. Nos Estados Unidos, o consumo médio teria de cair cerca de 90% para coincidir com o nível sustentável proposto.
Para os países de rendimento elevado, o estudo não propõe um pequeno ajuste alimentar, mas sim uma mudança profunda na frequência com que a carne aparece no prato.
Como poderia ser uma semana com 225 gramas
Transformar um limite abstrato em gramas num plano alimentar concreto torna-o mais fácil de visualizar. Um padrão semanal possível poderia ser:
- Uma refeição modesta à base de frango, como um salteado com 100–120 g de frango
- Uma refeição com carne de porco, usando 80–100 g de carne num estufado ou molho para massa
- Nos restantes dias, recorrer a proteínas vegetais como feijão, lentilhas, tofu ou grão-de-bico
As porções são mais pequenas do que aquelas a que muitas pessoas em países com elevado consumo de carne estão habituadas. A carne passa a funcionar mais como complemento de sabor ou guarnição, em vez de um grande bife a ocupar metade do prato.
Saúde, clima e o papel das políticas públicas
O estudo não defende que os seres humanos tenham de se tornar totalmente vegetarianos. Reconhece que os produtos de origem animal fazem parte da alimentação humana há muito tempo. Em vez disso, aponta para um nível de consumo “razoável” que poderia reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e aliviar a pressão sobre a terra e a água.
Há também uma dimensão de saúde. Muitas autoridades de saúde pública já recomendam a redução do consumo de carne vermelha e processada para diminuir riscos associados a doenças cardiovasculares, certos tipos de cancro e obesidade. Uma transição para porções menores e mais proteínas vegetais está frequentemente alinhada com essas orientações.
Ainda assim, alterar hábitos à escala global não dependerá apenas de escolhas individuais. Os investigadores sublinham que os sistemas alimentares precisam de apoio por parte dos decisores políticos a nível local, nacional e internacional. Isso pode incluir subsídios agrícolas, regras de compras públicas para escolas e hospitais, e novas normas de rotulagem que tornem os impactos climáticos mais visíveis para os consumidores.
Os autores defendem que as dietas sustentáveis têm de estar ao alcance de todos, e não apenas de quem tem tempo e dinheiro para selecionar cuidadosamente as suas compras.
Termos-chave que moldam o debate
Há dois conceitos por trás desta discussão: “gases com efeito de estufa” e “limites planetários”.
Os gases com efeito de estufa retêm calor na atmosfera. O dióxido de carbono resulta da queima de combustíveis fósseis e da desflorestação. O metano, fortemente associado a vacas e ovelhas, permanece menos tempo na atmosfera, mas tem um poder de aquecimento muito elevado. O óxido nitroso provém dos fertilizantes e do estrume. Quando os cientistas falam em “CO2-equivalente”, estão a reunir todos estes gases numa unidade comum com base no seu efeito de aquecimento do planeta.
Os limites planetários referem-se aos limiares dos sistemas da Terra - como a estabilidade climática, o uso do solo e a disponibilidade de água doce - que, se forem ultrapassados, aumentam o risco de mudanças amplas e difíceis de reverter. A produção alimentar, e em especial a pecuária, pressiona vários destes limites ao mesmo tempo.
O que acontece se não mudarmos de rumo
Os analistas costumam modelar dois futuros gerais. No primeiro, o consumo de carne continua a subir à medida que os rendimentos crescem nas economias emergentes e se mantém elevado nos países ricos. Nesse cenário, a quota da agricultura nas emissões globais permanece teimosamente alta, tornando as metas climáticas mais difíceis de alcançar mesmo que a energia e os transportes descarbonizem rapidamente.
No segundo, os países com consumo elevado reduzem de forma acentuada a ingestão de carne, enquanto as regiões de menor rendimento melhoram a alimentação sobretudo através de mais proteínas vegetais e aumentos modestos de produtos de origem animal. Este cenário liberta terra para florestas e biodiversidade, reduz emissões de metano e óxido nitroso e diminui a pressão sobre a água e os solos.
Cada quilograma de carne substituído por feijão, lentilhas ou frutos secos aproxima o sistema alimentar deste segundo caminho. O estudo dinamarquês não finge que esta transição será rápida ou simples. Mas coloca um número claro em cima da mesa: 225 gramas por semana, repartidas por uma população mundial em crescimento, se quisermos que a produção de carne se mantenha dentro do que o planeta consegue suportar.
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