Nos hospitais franceses, adultos ainda em idade activa vagueiam desorientados, presos a falhas de memória que nunca chegam a sarar.
Estes doentes não têm apenas “problemas com álcool”. Muitos vivem com uma forma específica de demência associada à bebida, geralmente silenciosa, pouco diagnosticada e, talvez o mais chocante, em grande parte evitável com uma vitamina barata e conhecida há décadas.
Uma demência ligada ao álcool que surge cedo demais
Enquanto muita gente associa demência à velhice avançada, a realidade francesa mostra outro quadro: o consumo excessivo de álcool tornou-se um poderoso combustível para perturbações cognitivas antes dos 65 anos.
Um grande estudo nacional, com mais de 57 mil casos de demência precoce, revelou um dado difícil de ignorar: cerca de 60% dos diagnósticos antes dos 65 anos tinham relação directa com o álcool. Ou seja, não estamos a falar de um risco marginal, mas sim de um factor central na perda de memória e de autonomia de adultos ainda em plena fase produtiva da vida.
Investigações realizadas na Finlândia apontam na mesma direcção. Entre pessoas com perturbação do uso de álcool, o risco de demência precoce aumenta quase seis vezes nas mulheres e cerca de 5,7 vezes nos homens. Outro levantamento estima que, em homens entre os 45 e os 64 anos, o consumo abusivo de álcool está associado a 8% dos novos casos de demência.
O consumo excessivo de álcool não provoca apenas cirrose ou acidentes: está a transformar-se num dos motores mais fortes do declínio cognitivo precoce.
Segundo a organização britânica Alzheimer’s Society, aproximadamente uma em cada oito pessoas com demência precoce apresenta perturbações cognitivas ligadas ao álcool, com diagnósticos frequentes entre os 40 e os 50 anos.
Do “binge drinking” ao esquecimento irreversível
Os danos cerebrais relacionados com o álcool formam um contínuo. Começam com prejuízos discretos após episódios de “binge drinking” (consumo de grandes quantidades em pouco tempo), passam por quadros de uso crónico intenso e podem evoluir até à temida síndrome de Korsakoff.
Na síndrome de Korsakoff, a memória fica devastada. A pessoa perde recordações antigas, aquilo a que os médicos chamam amnésia retrógrada, e também perde a capacidade de fixar novas informações, a amnésia anterógrada.
Para “preencher” essas falhas, o cérebro cria histórias falsas, mas plausíveis. São fabulações, não mentiras conscientes. O doente acredita nelas, mistura situações, inventa encontros, confunde datas. Por vezes, reconhece pessoas que nunca viu. Na prática, consegue manter uma conversa, mas perde-se em detalhes básicos sobre o próprio dia.
Desorientação, quedas e olhar perdido
Os danos não se limitam à memória. Muitos desenvolvem:
- dificuldade em situar-se no tempo e no espaço;
- problemas para lembrar trajectos simples, como o caminho até ao supermercado;
- ataxia, ou seja, perda de coordenação motora, com marcha instável;
- movimentos anómalos dos olhos, com nistagmo ou dificuldade em mover o olhar.
Outro ponto delicado é a anosognosia: a incapacidade de reconhecer o próprio défice. O doente garante que está bem, desvaloriza os esquecimentos, acha que a família exagera. Este desfasamento entre realidade e percepção atrasa a procura de ajuda.
Em muitos casos, não se trata de “falta de força de vontade”. O cérebro já está comprometido e o próprio doente não percebe a dimensão dos danos.
O elo invisível: a falta de vitamina B1
Por detrás de grande parte destes quadros está um factor muito concreto: a deficiência de tiamina, a vitamina B1. Ela é essencial para o funcionamento das células nervosas e para o metabolismo energético do cérebro.
O corpo humano não produz B1. A única fonte é a alimentação ou a suplementação. Em pessoas saudáveis, entre 1 mg e 2 mg por dia, vindos de uma alimentação variada, costuma ser suficiente.
Onde entra o álcool nesta história
Entre pessoas com dependência de álcool, a carência de B1 surge por várias vias ao mesmo tempo:
- alimentação pobre, já que muitas calorias vêm da bebida;
- redução da absorção intestinal da tiamina;
- diminuição das reservas de B1 no fígado;
- aumento do consumo de tiamina pelas células devido ao stress metabólico;
- diarreia e vómitos, que agravam a absorção.
O resultado pode ser uma fase aguda chamada encefalopatia de Wernicke. Esta pode provocar confusão, alterações oculares e desequilíbrio. Se não receber rapidamente tiamina por via injectável, até 80% destes casos evoluem para a síndrome de Korsakoff, a forma crónica e irreversível do quadro.
Uma grande parte destes danos poderia ser evitada com suplementação precoce de vitamina B1 em doentes com uso problemático de álcool.
Diagnóstico falhado e um escândalo silencioso
Na prática, a encefalopatia de Wernicke é pouco reconhecida nos serviços de saúde. O “quadro clássico” ensinado nos livros - confusão, alterações oculares e ataxia - aparece completo em apenas cerca de 16% dos doentes.
Por isso, os especialistas defendem o uso dos chamados critérios de Caine, que alargam o olhar clínico. São quatro pontos principais, e o diagnóstico é sugerido quando pelo menos dois surgem em conjunto:
| Critério | Descrição clínica |
|---|---|
| Défices nutricionais | Baixo peso, desnutrição, dietas extremas, vómitos frequentes |
| Alterações oculares | Nistagmo, paralisia do olhar, visão dupla |
| Síndrome cerebelosa | Marcha instável, desequilíbrio, dificuldade em coordenar movimentos |
| Confusão ou falhas de memória | Desorientação, atenção flutuante, défices de memória de moderados a graves |
Entre pessoas com uso problemático de álcool, alguns especialistas defendem que a presença de apenas um destes sinais já justifica a administração imediata de tiamina, sem esperar por exames de imagem ou resultados laboratoriais.
Um perfil ainda pouco mapeado, mas caro e letal
As estimativas francesas sugerem que entre 60 mil e 100 mil pessoas vivem com perturbações cognitivas graves ligadas ao álcool. Só a síndrome de Korsakoff responderia por 600 a 900 novos casos por ano no país.
Um estudo em hospitais públicos da região de Paris, com 1.320 doentes acompanhados entre 2017 e 2022, traçou um perfil preocupante:
- 72,9% eram homens;
- idade média de 62,9 anos;
- elevada frequência de hipertensão arterial e episódios depressivos;
- mortalidade em torno de 30% em três anos de seguimento;
- custos hospitalares médios superiores a 15 mil euros por doente por ano.
Sem um percurso de cuidados específico, a combinação de demência precoce, dependência de álcool e vulnerabilidade social transforma-se numa máquina de exclusão.
A errância médica e o limbo assistencial
Para lá dos números, há uma realidade dura: muitos destes doentes não “cabem” em lado nenhum. São considerados demasiado jovens para a geriatria, demasiado desorientados para os serviços sociais comuns, demasiado estáveis para a psiquiatria aguda e demasiado complexos para os serviços tradicionais de tratamento da dependência.
A falta de uma rede especializada reforça estigmas. Quem bebe em excesso tende a ser visto como culpado pelo próprio estado, o que reduz a empatia e atrasa intervenções. Ao mesmo tempo, as famílias ficam sem orientação e acabam por assumir cuidados pesados, muitas vezes sem apoio público.
Porque é que a tiamina não é usada de forma rotineira?
Se a vitamina B1 é barata, segura e conhecida, porque não entra de forma sistemática nos atendimentos de risco? Os profissionais apontam vários factores:
- subestimação do impacto da deficiência de B1 no cérebro;
- formação médica pouco virada para perturbações cognitivas ligadas ao álcool;
- maior foco no tratamento da abstinência e da desintoxicação, e menos na prevenção neurológica;
- falta de protocolos claros nos serviços de urgência e nos cuidados gerais.
A ausência de tiamina em muitos atendimentos de urgência, mesmo em doentes com consumo intenso de álcool, tornou-se um símbolo deste “apagão” preventivo.
Quatro frentes de acção que mudariam o jogo
Especialistas franceses em adição, neurologia e saúde pública defendem um plano articulado para travar esta forma evitável de demência precoce, com quatro eixos principais:
- prescrição sistemática de tiamina injectável em doentes com suspeita de perturbação do uso de álcool ou em abstinência;
- formação em larga escala de profissionais de saúde para reconhecer quadros iniciais de encefalopatia de Wernicke;
- criação de unidades regionais especializadas em síndrome de Korsakoff, unindo reabilitação cognitiva e apoio social;
- inclusão do risco de demência ligada ao álcool nas políticas de prevenção e nos percursos de cuidados em adição.
Um detalhe que pode agravar tudo: o papel do açúcar
Há um ponto pouco conhecido, mas com impacto directo nos cuidados de emergência: administrar glicose a um doente com deficiência de B1 antes de fornecer tiamina pode acelerar os danos cerebrais.
Ao receber açúcar, o cérebro aumenta o uso de tiamina nas reacções metabólicas. Se as reservas vitamínicas já estiverem no limite, esse “empurrão” pode consumir o que resta e precipitar uma encefalopatia aguda em poucas horas. Por isso, em doentes com forte suspeita de consumo crónico de álcool ou desnutrição, recomenda-se administrar vitamina B1 antes ou em simultâneo com a glicose.
O que isto sinaliza para o Brasil
A realidade francesa serve de alerta concreto para outros países, incluindo o Brasil, que combina elevado consumo de álcool com forte desigualdade social. Muitos dos elementos descritos - carência nutricional, dificuldade de acesso a cuidados especializados, estigma - também estão presentes aí.
Hospitais que lidam diariamente com intoxicação alcoólica, traumas e episódios de crise poderiam incorporar protocolos de tiamina e critérios de Caine. Os cuidados de saúde primários, os CAPS e as unidades de acolhimento de pessoas em situação de sem-abrigo também se tornariam pontos estratégicos para prevenção, rastreio de défice cognitivo e orientação às famílias.
Para quem vive com alguém que bebe muito, sinais como quedas frequentes, esquecimentos marcados de factos recentes, histórias visivelmente confusas e alterações do equilíbrio merecem atenção. Não se trata apenas de “desleixo”, “preguiça” ou “mania de beber”: pode haver um cérebro a sofrer em silêncio, num processo que, em grande parte dos casos, poderia ter sido travado a tempo.
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